Pouca Terra

ideias soltas sobre o documentário | Arlindo Horta

Mais uma nota anacrónica

[Ainda o DocLisboa]

Não posso comentar a polémica que envolveu o filme vencedor da competição nacional [“Pare, Escute, Olhe”] porque não o vi mas não quero deixar de registar, em relação à mesma, as justificações que os elementos do júri deram para a atribuição do prémio [citados em artigo do Ipsilon, de 7 de Novembro].

Diz um [Guy Knafo]:

“Alguém se deu ao trabalho de ver até que ponto o filme tem ritmo, fala de histórias humanas e universais, até que ponto a montagem é boa, poderosa, ao serviço de uma causa verdadeira, universal? […] Que felicidade quando uma história nos é bem contada!”

Diz o outro [Raymond Walravens], considerando que muitos filmes nacionais tinham fragilidades:

“Nem todos tinham o ritmo, o tema, ou a forma de contar a história suficientemente forte para manter a audiência do cinema atenta durante 90 minutos. […] Os realizadores têm material muito interessante mas percebe-se que não há um produtor ou um editor que lute com eles para tentarem fazer o melhor filme para a audiência. […] Se alguém quer escrever um livro ou pintar um quadro, óptimo, não está a gastar o dinheiro dos contribuintes. Mas se quer fazer um filme deve pensar que o que está a fazer custa dinheiro. […] Porque é que há-de tanta gente estar a esforçar-se para que um filme seja visto por mais pessoas e o único que não se preocupa com isso há-de ser o realizador?”

São palavras importantes de registar, para futura referência, por várias razões.

A primeira [e que me interessa particularmente porque tenho sempre tanta dificuldade em definir o que é um documentário, como já se percebeu] é que clarifica muito bem o que é um bom documentário: 1) conta uma história humana e universal [como suponho que seja a história de uma antiga linha ferroviária degradada e em vias de fechar], 2) tem uma montagem poderosa [por oposição, suponho, a planos-sequência poderosos], 3) tem ritmo [embora não especifique qual – há filmes sem ritmo?], 4) está ao serviço de uma causa verdadeira e universal [novamente, como a da manutenção da linha do Tua] e 5) tem a duração média de 90 minutos e mantém a audiência sempre atenta [e em sentido, já agora]. Isto é o que se aprende em termos conceptuais sobre “documentário”.

Mas também se podem retirar algumas conclusões em relação aos métodos de produção. Por exemplo, que o realizador normalmente nunca se esforça para que o seu filme seja visto pelo maior número de pessoas possível e que esse papel [ou esse trabalho] cabe, claro, ao produtor. O produtor, esse, é aquele que está do lado do público [é natural, se soubesse fazer filmes seria realizador], é ele que luta “para fazer um melhor filme para a audiência”. O realizador, no fundo, não quer ou não sabe comunicar [faltou perguntar porque é que ele faz filmes, afinal?].

A banalidade dos argumentos e dos critérios é tão flagrante que custa a acreditar estarmos perante elementos de um júri do mais importante festival documental do país. Mas importa fazer uma correcção de uma dessas banalidades, a de que um “realizador deve pensar que está a gastar o dinheiro dos contribuintes”. É um insulto tão habitual que já o recebemos com naturalidade, mas não deixa de ser um insulto. E neste caso sinto-me bestialmente insultado [assumindo que sou um wannabe realizador de documentários] porque a grande maioria dos realizadores portugueses que se atrevem a fazer documentários fazem-no muitas vezes à custa do seu próprio dinheiro, equipamento e investimento pessoal [de tempo, recursos, afectos]… Basta olhar para a ficha técnica dos mesmos [não sei nem me interessa para o caso quais dos exibidos em competição nacional estariam nessa categoria]. Importaria muito mais, caso este fosse um júri sério, equacionar as tais eventuais “fragilidades” dos filmes nacionais com os métodos de produção relativamente artesanais que decorrem de estratégias pessoais de financiamento dos mesmos [e que se devem, precisamente, ao inverso daquilo de que somos acusados – da falta de apoio financeiro efectivo à produção regular de documentários]. Por exemplo.

Por outro lado, seria refrescante ouvir alguém colocar alguma responsabilidade do lado do público e afirmar sem pudor que um dos deveres de qualquer espectador é o de ir ao encontro de um filme. Porque a ideia, banalíssima, de que é o filme que tem esse exclusivo encargo [de ir ao encontro de uma audiência] torna demasiado visíveis, e de uma forma confrangedora, os limites de um debate que se julgaria “mais elevado”, digamos assim.

No fundo, não há mistério nenhum em tudo isto se pensarmos que o primeiro destes senhores está ligado à distribuição televisiva de documentários a nível mundial e que o segundo é director e programador do Rialto, uma sala de cinema independente holandesa. Percebe-se porque é que compreendem tão bem “o lado do público”.

Filed under: festivais,

One Response

  1. Andi diz:

    We cold’uve done with that insight early on.

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