Pouca Terra

ideias soltas sobre o documentário | Arlindo Horta

Nota breve e tardia sobre o DocLisboa

Este ano consegui ser espectador quase diário de algumas sessões do festival. Considerando, obviamente, que a meia-dúzia de filmes que vi não será representativa o suficiente para fazer um balanço crítico do festival, a sua visão sucessiva [e o seu destaque no conjunto da programação do Doc: todos passaram na Culturgest, no Grande Auditório, em “horário nobre”, digamos assim] não deixam de constituir uma boa base para uma breve reflexão sobre o que parece ser cada vez mais o Documentário Contemporâneo.

Em jeito de “declaração de interesses” devo referir que vi os filmes:

– “La Forteresse”, de Fernand Melgar

– “Below Sea Level”, de Gianfranco Rosi

– “Above the ground, beneath the sky”, de Simon Lereng Wilmont

– “Nenette”, de Nicolas Philibert

– “Constantin and Elena”, de Andrei Dascalescu

– “Long Distance Love”, de Elin Jonsson e Magnus Gertten… [bom, este, confesso, saí após 15 minutos]

Agora, noutro contexto, vi mais um que fez parte da programação, “Material”, de Thomas Heise. [E já vão sete – um recorde!]

Para o apontamento que se segue, este e o de Nicolas Philibert não contam – aliás, contam como excepções: estão nos antípodas daquilo que digo sobre os outros.

Com méritos e defeitos distintos e em proporções variáveis [“La Forteresse” é um filme brilhante, por exemplo, digo-o desde já], o que há de comum entre todas estas obras é uma aproximação formal muito evidente e muito consciente ao universo da “ficção”. A découpage dos planos e a estrutura de cada cena, a construção narrativa em torno de uma ideia de “protagonistas”, o ritmo e a duração de cada filme, a articulação entre uma certa preocupação pela linearidade e a evolução evidente dos “conflitos”, a total ausência de olhares para a câmara, de testemunhos, de tudo o que denuncie um “fora de campo observador ” – tudo nestes documentários remete para uma certa ideia de “um-documentário-pode-ser-tão-bom-de-ver-como-um-filme-de-ficção-só-que-mais-autêntico”…

Eu, que sou desde sempre um admirador confesso do dispositivo wisemaniano (ausência de comentário off, ausência de depoimentos para câmara), ao cabo de dois ou três filmes dei por mim a suspirar por um depoimentozinho, um breve esgar para a câmara, uma simples piscadela de olho… No fundo, o que me parece, é que ninguém daria pelo facto destes filmes serem documentários se o festival não fosse classificado como festival de cinema documental.

Talvez este “desejo de ser ficção” não tenha mal em si, mas a sua generalização e banalização aproxima [demasiado, a meu ver] o campo do documentário desse terrível vício mediático que consiste em tornar aqueles que filma meros instrumentos desse desejo. [“Long Distance Love” é, a esse nível, um tristíssimo exemplo.]

Já os filmes de Philibert e de Heise estão numa categoria à parte. Ambos merecem, aliás, uma nota própria – que farei assim que tiver tempo. Mas não deixo de registar uma última perplexidade: tal como o filme de Heise [definitivamente um documentário sobre o qual se pode falar longamente… mas ainda estou a digeri-lo], mais uma vez o filme do Wiseman em estreia no festival foi, como sempre, remetido para uma sessão das onze da manhã [o do Heise passou durante a tarde]… São filmes difíceis, sim, mas não merecia horário melhor aquele que é o maior documentarista vivo [e um dos maiores cineastas contemporâneos tout court]? Se me queixo é porque todos os anos [à excepção do ano passado em que lhe dedicaram uma retrospectiva] é esse o horário em que, invariavelmente, passam as obras do homem. [Ao menos ponham-no ao fim-de-semana, caramba!]

Filed under: festivais, ,

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