Pouca Terra

ideias soltas sobre o documentário | Arlindo Horta

Sobre Neda

Hesitei em escrever sobre isto mas é uma questão que me assombra e que não consigo abandonar.

Vi o vídeo da morte de Neda quando este ainda não enchia todos os jornais e antes que ela se tornasse o símbolo que agora é. Procurava apenas ver imagens das manifestações enquanto me actualizava sobre a situação no Irão. E a minha primeira e instintiva reacção foi a recusa. Não quis ver. Havia ali um momento em que a minha curiosidade, a minha perplexidade e o choque perante aquela morte  brutal e em directo se cruzavam com um intenso pudor e uma sensação irreprimível de estar perante algo obsceno. Quando fui confrontado com o impacto mediático daquelas imagens, vacilei. E constatei duas coisas: primeiro, não tinha percebido esse potencial impacto mediático (o que só posso atribuir à minha burrice); segundo, o desconforto permanecia, e acentuava-se. Esta é a minha tentativa de perceber porquê.

Não se trata de escrever sobre a morte de Neda, o facto trágico em si, nem sobre a sua ascensão como símbolo de uma luta ou da brutalidade de um regime político. Quero falar sobre o gesto de filmar essa morte [a violência desse gesto versus a violência do que é filmado] e sobre uma interrogação que não me larga desde o primeiro instante: até que ponto é humano esse gesto? Será, para a maior parte das pessoas, uma questão demasiado lateral em face do que está em jogo – mas esse é precisamente o ponto: é uma questão lateral?

A morte [a morte dos outros] convoca uma intimidade que, até agora, raramente nos atrevemos a quebrar. Será uma espécie de momento surdo sobre o qual mantemos conscientemente um pudor e uma distância prudentes. O que me interessa é perceber se é legítimo violar essa intimidade e em nome do quê o fazemos? Há ou não uma fronteira, não digo inviolável [todas as fronteiras o são, violáveis], mas que deveria a todo o custo permanecer fechada? À morte violenta habituámo-nos a vê-la sublimada pelo cinema de ficção para a construção da nossa comoção. Mas aqui, estando no domínio da imagem, não estamos no território da ficção.  Sabemos para que serve a exposição da morte de Neda, mas sabendo isso devemos ainda assim “mostrá-la”? Porque é disso que se trata, não é?, – de “mostrar” [ao mundo].

Recapitulemos: há um corpo que cai na estrada, há gente que corre, a câmara aproxima-se, há pessoas que rodeiam o corpo, alguém fala com a jovem caída, a câmara desvia-se, rodeia quem assiste, descobre novamente o rosto da vítima que aos poucos fica coberto de sangue.

O gesto de filmar não parece ser um gesto voyeur, não parece haver uma intenção mórbida. Há antes uma urgência no acto, uma consciência da sua “necessidade”. Para quem o fez, filmar esta morte terá sido um gesto necessário, um gesto político – impulsivo, seguramente, irreflectido, talvez, mas consciente do seu “valor” político. Pela acção da câmara que a filmava a morte de Neda tornava-se, no próprio momento em que ocorria, uma morte “útil” – e é isto que sem dúvida me incomoda, a dimensão utilitária de uma tragédia individual em directo.

Portanto a verdadeira questão é esta: porque é que filmar a morte se tornou um gesto necessário? Que necessidade, afinal, estamos a preencher?

Não tenho respostas complexas, não sou teórico para falar do valor da imagem no mundo contemporâneo, mas parece-me que a culpa é nossa. Porque já não acreditamos senão nas imagens. A imagem adquiriu, na nossa vida, o estatuto de uma “crença” – temos de ver para crer. Já não acreditamos no valor do relato. Não acreditamos o suficiente quando nos dizem “já morreram 18, 20, 60 pessoas nas manifestações no Irão”. Dizer que há morte não basta – temos que mostrá-la, que ver a sua imagem. [Saber que alguns milhões morrem de fome não é suficiente. Há que encontrar alguém que aceite morrer de fome à frente de uma câmara.] Só assim somos capazes de convocar a nossa revolta, a nossa compaixão, ou qualquer outra emoção efectivamente vinculativa. E é isto que é obsceno.

A morte de Neda, para lá da sua dimensão trágica e política, foi também mais um passo na consolidação do valor da imagem enquanto crença.

O documentário, e aquilo que está na sua génese, navega perigosamente perto deste domínio.

Filed under: actualidade, ,

Até hoje, todos nos traíram

Enquanto pensava no melhor tema de estreia para inaugurar as minhas modestas “reflexões documentais”, deparei-me, por um acaso [no youtube], com um dos mais perturbantes filmes|documentários que vi até hoje. Chama-se “L’Ordre” e foi realizado por Jean Daniel Pollet, que [fiquei a saber] é um dos autores mais secretos da nouvelle vague francesa. O filme fala [e "fala" é mesmo o verbo que melhor se aplica] da ilha-prisão de Spinalonga, na qual foram encarcerados pelo Estado grego, entre 1904 e 1956, os doentes de lepra do país. Sobre imagens repetidas, uma e outra vez, das ruínas vazias da ilha, dos caminhos, das barreiras e dos limites que cercavam os seus prisioneiros, o filme cruza a “sua” voz com a voz|testemunho de um dos ex-habitantes de Spinalonga que nos interroga frontalmente:

“Durante estes anos muita gente veio ver-nos. Alguns para tirar fotografias, outros com um ponto de vista literário, para ver uma espécie de gente diferente. Muitos fizeram filmes. Até hoje, todos nos traíram. Nenhum transmitiu o que nós queríamos e aquilo que tinham prometido mostrar ao mundo. E isso feria-nos porque uns queriam mostrar a compaixão e outros queriam mostrar a repulsa, mas nós não queremos nem que nos detestem nem que tenham pena de nós. Nós precisamos apenas de amor. Amor enquanto pessoas que sofreram um infortúnio e não enquanto fenómenos.”

A acusação lançada por este testemunho verbaliza aquela que é, para mim, a questão central na definição de um documentário. Provavelmente cada um de nós tem uma ideia diferente sobre aquilo que é um “documentário” – para a maioria das pessoas radica numa separação do território da “ficção”, legitimada pelo enquadramento de “uma realidade” documentada, digamos assim [isto é, passível de ser comprovada]. O documentário ocuparia assim o território da “autenticidade” e da “verdade”, dois conceitos particularmente problemáticos. Por exemplo: porque é que não chamamos, então, documentários aos filmes de Pedro Costa ["No quarto de Vanda", "Juventude em marcha"] ou de Kiarostami ["Close-up", em particular]? Ou como classificar um filme como “Russian Ark” de Sokurov? Mais grave: porque insistimos em chamar ‘documentários’ aos filmes de Michael Moore? [E já agora aos do outro, do Spurlong?] Nestes e noutros casos é comum ler-se sobre a diluição das fronteiras entre “ficção” e “documentário”, mas nunca ninguém explica que fronteiras são essas. Afinal, aquilo que organiza a realidade, tal como organiza a “ficção”, são as narrativas [individuais e colectivas] e o que são os “documentários” senão representações específicas dessas múltiplas narrativas [dos intervenientes, do realizador, da História enquanto reconstrução da memória]?

Para mim o que define um documentário é, acima de tudo, a qualidade da relação que quem filma estabelece com quem é filmado: um documentário é um filme que não trai a “verdade” daqueles que filma – melhor, é um filme que devolve a verdade aos que filma. A especificidade do documentário [esqueçamos as definições] situa-se, portanto, na ordem da ética. Pollet não recusa olhar de frente os doentes que filma, mas recusa exibi-los. Devolve-lhes a verdade [a voz] que, “até hoje”, todos lhes negaram. É nisto que um filme|documentário se distingue de outras categorias cinematográficas. É aqui que reside a sua força maior. Como “L’Ordre” bem ilustra, um documentário é, ao mesmo tempo, um gesto poético e um gesto político.

O filme vai estar em videovigilância. São apenas quarenta minutos. Vale a pena.

Filed under: documentário, , ,

Arquivo

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.