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	<title>Pouca Terra</title>
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	<description>ideias soltas sobre o documentário &#124; Arlindo Horta</description>
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		<title>Pouca Terra</title>
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		<title>Nota breve e tardia sobre o DocLisboa</title>
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		<pubDate>Mon, 09 Nov 2009 00:19:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Arlindo Horta</dc:creator>
				<category><![CDATA[festivais]]></category>
		<category><![CDATA[doclisboa]]></category>
		<category><![CDATA[philibert]]></category>

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		<description><![CDATA[Este ano consegui ser espectador quase diário de algumas sessões do festival. Considerando, obviamente, que a meia-dúzia de filmes que vi não será representativa o suficiente para fazer um balanço crítico do festival, a sua visão sucessiva [e o seu destaque no conjunto da programação do Doc: todos passaram na Culturgest, no Grande Auditório, em [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=poucaterra.wordpress.com&blog=851415&post=201&subd=poucaterra&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p>Este ano consegui ser espectador quase diário de algumas sessões do festival. Considerando, obviamente, que a meia-dúzia de filmes que vi não será representativa o suficiente para fazer um balanço crítico do festival, a sua visão sucessiva [e o seu destaque no conjunto da programação do Doc: todos passaram na Culturgest, no Grande Auditório, em "horário nobre", digamos assim] não deixam de constituir uma boa base para uma breve reflexão sobre o que parece ser cada vez mais o Documentário Contemporâneo.</p>
<p>Em jeito de &#8220;declaração de interesses&#8221; devo referir que vi os filmes:</p>
<p>- &#8220;La Forteresse&#8221;, de Fernand Melgar</p>
<p>- &#8220;Below Sea Level&#8221;, de Gianfranco Rosi</p>
<p>- &#8220;Above the ground, beneath the sky&#8221;, de Simon Lereng Wilmont</p>
<p>- &#8220;Nenette&#8221;, de Nicolas Philibert</p>
<p>- &#8220;Constantin and Elena&#8221;, de Andrei Dascalescu</p>
<p>- &#8220;Long Distance Love&#8221;, de Elin Jonsson e Magnus Gertten&#8230; [bom, este, confesso, saí após 15 minutos]</p>
<p>Agora, noutro contexto, vi mais um que fez parte da programação, &#8220;Material&#8221;, de Thomas Heise. [E já vão sete - um recorde!]</p>
<p>Para o apontamento que se segue, este e o de Nicolas Philibert não contam &#8211; aliás, contam como excepções: estão nos antípodas daquilo que digo sobre os outros.</p>
<p>Com méritos e defeitos distintos e em proporções variáveis ["La Forteresse" é um filme brilhante, por exemplo, digo-o desde já], o que há de comum entre todas estas obras é uma aproximação formal muito evidente e muito consciente ao universo da &#8220;ficção&#8221;. A <em>découpage</em> dos planos e a estrutura de cada cena, a construção narrativa em torno de uma ideia de &#8220;protagonistas&#8221;, o ritmo e a duração de cada filme, a articulação entre uma certa preocupação pela linearidade e a evolução evidente dos &#8220;conflitos&#8221;, a total ausência de olhares para a câmara, de testemunhos, de tudo o que denuncie um &#8220;fora de campo observador &#8221; &#8211; tudo nestes documentários remete para uma certa ideia de &#8220;um-documentário-pode-ser-tão-bom-de-ver-como-um-filme-de-ficção-só-que-mais-autêntico&#8221;&#8230;</p>
<p>Eu, que sou desde sempre um admirador confesso do dispositivo wisemaniano (ausência de comentário off, ausência de depoimentos para câmara), ao cabo de dois ou três filmes dei por mim a suspirar por um depoimentozinho, um breve esgar para a câmara, uma simples piscadela de olho&#8230; No fundo, o que me parece, é que ninguém daria pelo facto destes filmes serem documentários se o festival não fosse classificado como festival de cinema documental.</p>
<p>Talvez este &#8220;desejo de ser ficção&#8221; não tenha mal em si, mas a sua generalização e banalização aproxima [demasiado, a meu ver] o campo do documentário desse terrível vício mediático que consiste em tornar aqueles que filma meros instrumentos desse desejo. ["Long Distance Love" é, a esse nível, um tristíssimo exemplo.]</p>
<p>Já os filmes de Philibert e de Heise estão numa categoria à parte. Ambos merecem, aliás, uma nota própria &#8211; que farei assim que tiver tempo. Mas não deixo de registar uma última perplexidade: tal como o filme de Heise [definitivamente um documentário sobre o qual se pode falar longamente... mas ainda estou a digeri-lo], mais uma vez o filme do Wiseman em estreia no festival foi, como sempre, remetido para uma sessão das onze da manhã [o do Heise passou durante a tarde]&#8230; São filmes difíceis, sim, mas não merecia horário melhor aquele que é o maior documentarista vivo [e um dos maiores cineastas contemporâneos <em>tout court</em>]? Se me queixo é porque todos os anos [à excepção do ano passado em que lhe dedicaram uma retrospectiva] é esse o horário em que, invariavelmente, passam as obras do homem. [Ao menos ponham-no ao fim-de-semana, caramba!]</p>
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		<title>Sobre Neda</title>
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		<pubDate>Thu, 02 Jul 2009 11:28:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Arlindo Horta</dc:creator>
				<category><![CDATA[actualidade]]></category>
		<category><![CDATA[ética]]></category>
		<category><![CDATA[imagem]]></category>

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		<description><![CDATA[Hesitei em escrever sobre isto mas é uma questão que me assombra e que não consigo abandonar.
Vi o vídeo da morte de Neda quando este ainda não enchia todos os jornais e antes que ela se tornasse o símbolo que agora é. Procurava apenas ver imagens das manifestações enquanto me actualizava sobre a situação no [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=poucaterra.wordpress.com&blog=851415&post=193&subd=poucaterra&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p>Hesitei em escrever sobre isto mas é uma questão que me assombra e que não consigo abandonar.</p>
<p>Vi o vídeo da morte de Neda quando este ainda não enchia todos os jornais e antes que ela se tornasse o símbolo que agora é. Procurava apenas ver imagens das manifestações enquanto me actualizava sobre a situação no Irão. E a minha primeira e instintiva reacção foi a recusa. Não quis ver. Havia ali um momento em que a minha curiosidade, a minha perplexidade e o choque perante aquela morte  brutal e em directo se cruzavam com um intenso pudor e uma sensação irreprimível de estar perante algo obsceno. Quando fui confrontado com o impacto mediático daquelas imagens, vacilei. E constatei duas coisas: primeiro, não tinha percebido esse potencial impacto mediático (o que só posso atribuir à minha burrice); segundo, o desconforto permanecia, e acentuava-se. Esta é a minha tentativa de perceber porquê.</p>
<p>Não se trata de escrever sobre a morte de Neda, o facto trágico em si, nem sobre a sua ascensão como símbolo de uma luta ou da brutalidade de um regime político. Quero falar sobre o gesto de filmar essa morte [a violência desse gesto versus a violência do que é filmado] e sobre uma interrogação que não me larga desde o primeiro instante: até que ponto é humano esse gesto? Será, para a maior parte das pessoas, uma questão demasiado lateral em face do que está em jogo – mas esse é precisamente o ponto: é uma questão lateral?</p>
<p>A morte [a morte dos outros] convoca uma intimidade que, até agora, raramente nos atrevemos a quebrar. Será uma espécie de momento surdo sobre o qual mantemos conscientemente um pudor e uma distância prudentes. O que me interessa é perceber se é legítimo violar essa intimidade e em nome do quê o fazemos? Há ou não uma fronteira, não digo inviolável [todas as fronteiras o são, violáveis], mas que deveria a todo o custo permanecer fechada? À morte violenta habituámo-nos a vê-la sublimada pelo cinema de ficção para a construção da nossa comoção. Mas aqui, estando no domínio da imagem, não estamos no território da ficção.  Sabemos para que serve a exposição da morte de Neda, mas sabendo isso devemos ainda assim “mostrá-la”? Porque é disso que se trata, não é?, – de “mostrar” [ao mundo].</p>
<p>Recapitulemos: há um corpo que cai na estrada, há gente que corre, a câmara aproxima-se, há pessoas que rodeiam o corpo, alguém fala com a jovem caída, a câmara desvia-se, rodeia quem assiste, descobre novamente o rosto da vítima que aos poucos fica coberto de sangue.</p>
<p>O gesto de filmar não parece ser um gesto voyeur, não parece haver uma intenção mórbida. Há antes uma urgência no acto, uma consciência da sua “necessidade”. Para quem o fez, filmar esta morte terá sido um gesto necessário, um gesto político – impulsivo, seguramente, irreflectido, talvez, mas consciente do seu “valor” político. Pela acção da câmara que a filmava a morte de Neda tornava-se, no próprio momento em que ocorria, uma morte “útil” – e é isto que sem dúvida me incomoda, a <em>dimensão utilitária</em> de uma tragédia individual em directo.</p>
<p>Portanto a verdadeira questão é esta: porque é que filmar a morte se tornou um gesto necessário? Que necessidade, afinal, estamos a preencher?</p>
<p>Não tenho respostas complexas, não sou teórico para falar do valor da imagem no mundo contemporâneo, mas parece-me que a culpa é nossa. Porque já não acreditamos senão nas imagens. A imagem adquiriu, na nossa vida, o estatuto de uma “crença” – temos de ver para crer. Já não acreditamos no valor do relato. Não acreditamos o suficiente quando nos dizem “já morreram 18, 20, 60 pessoas nas manifestações no Irão”. Dizer que há morte não basta – temos que mostrá-la, que ver a sua imagem. [Saber que alguns milhões morrem de fome não é suficiente. Há que encontrar alguém que aceite morrer de fome à frente de uma câmara.] Só assim somos capazes de convocar a nossa revolta, a nossa compaixão, ou qualquer outra emoção efectivamente vinculativa. E é isto que é obsceno.</p>
<p>A morte de Neda, para lá da sua dimensão trágica e política, foi também mais um passo na consolidação do valor da <strong>imagem enquanto crença</strong>.</p>
<p>O documentário, e aquilo que está na sua génese, navega perigosamente perto deste domínio.</p>
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		<title>El Olvido</title>
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		<pubDate>Mon, 11 May 2009 23:28:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Arlindo Horta</dc:creator>
				<category><![CDATA[documentário]]></category>
		<category><![CDATA[honigmann]]></category>
		<category><![CDATA[indielisboa]]></category>
		<category><![CDATA[memória]]></category>

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		<description><![CDATA[Heddy Honigmann, 2008. Foi [quase] o único filme que vi no IndieLisboa. [infelizmente]. É um filme sobre o qual é difícil escrever &#8211; é difícil explicar-lhe a clareza e, ao mesmo tempo, a enorme subtileza.
Na capital do Perú, Lima, a câmara de Honigmann segue uma série de pessoas, acompanhando as suas estratégias de sobrevivência [profissionais [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=poucaterra.wordpress.com&blog=851415&post=182&subd=poucaterra&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p>Heddy Honigmann, 2008. Foi [quase] o único filme que vi no IndieLisboa. [infelizmente]. É um filme sobre o qual é difícil escrever &#8211; é difícil explicar-lhe a clareza e, ao mesmo tempo, a enorme subtileza.</p>
<p>Na capital do Perú, Lima, a câmara de Honigmann segue uma série de pessoas, acompanhando as suas estratégias de sobrevivência [profissionais e pessoais], dialogando directamente com elas de uma forma [aparentemente] espontânea e articulando as suas histórias, os seus discursos e as suas recordações com a memória histórica do recente percurso político do país. Com uma [meticulosa] estrutura &#8220;em mosaico&#8221; [para usar um termo tão na moda], Honigmann conduz uma espécie de inquérito sobre um país arruinado, partindo de um dispositivo tão simples quanto eficaz: começa por falar com e recolher testemunhos de pessoas comuns que, por via do &#8216;ofício&#8217;, contactaram directamente com os mais altos representantes do poder político (o barman do hotel cinco estrelas que preparou cocktails para todos os presidentes e ministros, o empregado de mesa de um outro restaurante por onde também passaram os protagonistas políticos, o filho do costureiro que confecciona as faixas presidenciais para as tomadas de posse&#8230;) e cruza-os com as histórias e o quotidiano de outros protagonistas que habitam &#8220;as margens&#8221; do &#8220;sistema&#8221;.</p>
<p>Chama-se &#8220;O Esquecimento&#8221; mas é um filme sobre a memória feito do lado de fora &#8211; isto é, rejeitando qualquer tipo de &#8220;interioridade&#8221; ou &#8220;discurso interior&#8221; normalmente associado ao processo (e estou a lembrar-me de &#8220;O Espelho&#8221;, de Tarkovsky, por exemplo). A memória que a câmara de Honigmann procura fixar é a que persiste no discurso dos seus protagonistas &#8211; e que coloca em evidência tanto o carácter fragmentado da mesma quanto [por vezes] a sua ausência [el olvido]. É um olhar objectivo sobre a memória dos outros e, portanto, sobre tudo o que fica de fora, porque não pode ser dito ou porque não pode ser recordado. Há um momento particularmente terrível que torna tudo isto muito mais óbvio: conversando com um miúdo [de 13, 14 anos] que engraxa sapatos na rua para sobreviver, Honigmann coloca-lhe a pergunta do costume &#8211; que boas recordações é que tu tens? Henry, o miúdo, responde que não tem nenhuma. Ela insiste &#8211; então, só tens más recordações? qual a pior recordação que tens? Henry volta a responder que também não tem nenhuma. E na banalidade desta resposta desenha-se todo o horror de uma vivência sem qualquer expectativa &#8211; a ausência de um passado não é senão a ausência de qualquer ideia de futuro.</p>
<p>[Muito fica por dizer, e o filme é muito mais do que isto, mas o que vemos nos filmes tem também sempre a ver com as nossas obsessões particulares - e a [construção da] memória é uma das minhas.]</p>
<p>O trailer não lhe faz justiça, mas aqui fica.</p>
<p><span style="text-align:center; display: block;"><a href="http://poucaterra.wordpress.com/2009/05/11/el-olvido/"><img src="http://img.youtube.com/vi/wvXvO7oD4ZU/2.jpg" alt="" /></a></span></p>
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		<title>Até hoje, todos nos traíram</title>
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		<pubDate>Fri, 24 Apr 2009 18:28:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Arlindo Horta</dc:creator>
				<category><![CDATA[documentário]]></category>
		<category><![CDATA[ética]]></category>
		<category><![CDATA[nouvelle vague]]></category>
		<category><![CDATA[pollet]]></category>

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		<description><![CDATA[Enquanto pensava no melhor tema de estreia para inaugurar as minhas modestas &#8220;reflexões documentais&#8221;, deparei-me, por um acaso [no youtube], com um dos mais perturbantes filmes&#124;documentários que vi até hoje. Chama-se &#8220;L&#8217;Ordre&#8221; e foi realizado por Jean Daniel Pollet, que [fiquei a saber] é um dos autores mais secretos da nouvelle vague francesa. O filme [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=poucaterra.wordpress.com&blog=851415&post=154&subd=poucaterra&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p>Enquanto pensava no melhor tema de estreia para inaugurar as minhas modestas &#8220;reflexões documentais&#8221;, deparei-me, por um acaso [no youtube], com um dos mais perturbantes filmes|documentários que vi até hoje. Chama-se &#8220;<strong>L&#8217;Ordre</strong>&#8221; e foi realizado por <strong>Jean Daniel Pollet</strong>, que [fiquei a saber] é um dos autores mais secretos da <em>nouvelle vague</em> francesa. O filme fala [e "fala" é mesmo o verbo que melhor se aplica] da ilha-prisão de Spinalonga, na qual foram encarcerados pelo Estado grego, entre 1904 e 1956, os doentes de lepra do país. Sobre imagens repetidas, uma e outra vez, das ruínas vazias da ilha, dos caminhos, das barreiras e dos limites que cercavam os seus prisioneiros, o filme cruza a &#8220;sua&#8221; voz com a voz|testemunho de um dos ex-habitantes de Spinalonga que nos interroga frontalmente:</p>
<p><em>&#8220;Durante estes anos muita gente veio ver-nos. Alguns para tirar fotografias, outros com um ponto de vista literário, para ver uma espécie de gente diferente. Muitos fizeram filmes. </em><strong><em>Até hoje, todos nos traíram</em></strong><em>. Nenhum transmitiu o que nós queríamos e aquilo que tinham prometido mostrar ao mundo. E isso feria-nos porque uns queriam mostrar a compaixão e outros queriam mostrar a repulsa, mas nós não queremos nem que nos detestem nem que tenham pena de nós. Nós precisamos apenas de amor. Amor enquanto pessoas que sofreram um infortúnio e não enquanto fenómenos.&#8221;</em></p>
<p>A acusação lançada por este testemunho verbaliza aquela que é, para mim, a questão central na definição de um documentário. Provavelmente cada um de nós tem uma ideia diferente sobre aquilo que é um &#8220;documentário&#8221; &#8211; para a maioria das pessoas radica numa separação do território da &#8220;ficção&#8221;, legitimada pelo enquadramento de &#8220;uma realidade&#8221; documentada, digamos assim [isto é, passível de ser comprovada]. O documentário ocuparia assim o território da &#8220;autenticidade&#8221; e da &#8220;verdade&#8221;, dois conceitos particularmente problemáticos. Por exemplo: porque é que não chamamos, então, documentários aos filmes de Pedro Costa ["No quarto de Vanda", "Juventude em marcha"] ou de Kiarostami ["Close-up", em particular]? Ou como classificar um filme como &#8220;Russian Ark&#8221; de Sokurov? Mais grave: porque insistimos em chamar &#8216;documentários&#8217; aos filmes de Michael Moore? [E já agora aos do outro, do Spurlong?] Nestes e noutros casos é comum ler-se sobre a diluição das fronteiras entre &#8220;ficção&#8221; e &#8220;documentário&#8221;, mas nunca ninguém explica que fronteiras são essas. Afinal, aquilo que organiza a realidade, tal como organiza a &#8220;ficção&#8221;, são as narrativas [individuais e colectivas] e o que são os &#8220;documentários&#8221; senão representações específicas dessas múltiplas narrativas [dos intervenientes, do realizador, da História enquanto reconstrução da memória]?</p>
<p>Para mim o que define um documentário é, acima de tudo, a qualidade da relação que quem filma estabelece com quem é filmado: um documentário é um filme que não trai a &#8220;verdade&#8221; daqueles que filma &#8211; melhor, é um filme que devolve a verdade aos que filma. A especificidade do documentário [esqueçamos as definições] situa-se, portanto, na ordem da ética. Pollet não recusa olhar de frente os doentes que filma, mas recusa exibi-los. Devolve-lhes a verdade [a voz] que, &#8220;até hoje&#8221;, todos lhes negaram. É nisto que um filme|documentário se distingue de outras categorias cinematográficas. É aqui que reside a sua força maior. Como <em><strong>&#8220;L&#8217;Ordre&#8221;</strong></em> bem ilustra, um documentário é, ao mesmo tempo, um gesto poético e um gesto político.</p>
<p>O filme vai estar em <a href="http://poucaterra.wordpress.com/videovigilancia/" target="_self">videovigilância</a>. São apenas quarenta minutos. Vale a pena.</p>
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		<title>Reset</title>
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		<pubDate>Wed, 15 Apr 2009 10:54:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Arlindo Horta</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Depois de algum abandono e de muita navegação à deriva, decidi finalmente dar a este blog um rumo. O que podem esperar a partir de hoje, sem obrigações de assiduidade, é um blog de carácter assumidamente profissional. Um blog para abordar questões relacionadas com o cinema documental (expressão que abomino, mas que entretanto utilizo por [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=poucaterra.wordpress.com&blog=851415&post=130&subd=poucaterra&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p>Depois de algum abandono e de muita navegação à deriva, decidi finalmente dar a este blog um rumo. O que podem esperar a partir de hoje, sem obrigações de assiduidade, é um blog de carácter assumidamente profissional. Um blog para abordar questões relacionadas com o cinema documental (expressão que abomino, mas que entretanto utilizo por uma questão de clareza) &#8211; não do ponto de vista da &#8220;divulgação&#8221; mas como reflexo das minhas angústias particulares em relação ao meio, ao meu trabalho e a autores cujo trabalho me serve de guia e inspiração (onde se incluem uns quantos ditos &#8220;autores de ficção&#8221;). </p>
<p>[Quando pela primeira vez pensei num blog era isto que eu queria fazer. Estou apenas, então, a rentabilizar um recurso que tem estado pouco activo.]   </p>
<p>As mudanças vão ser introduzidas aos poucos. Este é apenas um aviso à navegação. Até breve.</p>
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