Pouca Terra

ideias soltas sobre o documentário | Arlindo Horta

El Olvido

Heddy Honigmann, 2008. Foi [quase] o único filme que vi no IndieLisboa. [infelizmente]. É um filme sobre o qual é difícil escrever – é difícil explicar-lhe a clareza e, ao mesmo tempo, a enorme subtileza.

Na capital do Perú, Lima, a câmara de Honigmann segue uma série de pessoas, acompanhando as suas estratégias de sobrevivência [profissionais e pessoais], dialogando directamente com elas de uma forma [aparentemente] espontânea e articulando as suas histórias, os seus discursos e as suas recordações com a memória histórica do recente percurso político do país. Com uma [meticulosa] estrutura “em mosaico” [para usar um termo tão na moda], Honigmann conduz uma espécie de inquérito sobre um país arruinado, partindo de um dispositivo tão simples quanto eficaz: começa por falar com e recolher testemunhos de pessoas comuns que, por via do ‘ofício’, contactaram directamente com os mais altos representantes do poder político (o barman do hotel cinco estrelas que preparou cocktails para todos os presidentes e ministros, o empregado de mesa de um outro restaurante por onde também passaram os protagonistas políticos, o filho do costureiro que confecciona as faixas presidenciais para as tomadas de posse…) e cruza-os com as histórias e o quotidiano de outros protagonistas que habitam “as margens” do “sistema”.

Chama-se “O Esquecimento” mas é um filme sobre a memória feito do lado de fora – isto é, rejeitando qualquer tipo de “interioridade” ou “discurso interior” normalmente associado ao processo (e estou a lembrar-me de “O Espelho”, de Tarkovsky, por exemplo). A memória que a câmara de Honigmann procura fixar é a que persiste no discurso dos seus protagonistas – e que coloca em evidência tanto o carácter fragmentado da mesma quanto [por vezes] a sua ausência [el olvido]. É um olhar objectivo sobre a memória dos outros e, portanto, sobre tudo o que fica de fora, porque não pode ser dito ou porque não pode ser recordado. Há um momento particularmente terrível que torna tudo isto muito mais óbvio: conversando com um miúdo [de 13, 14 anos] que engraxa sapatos na rua para sobreviver, Honigmann coloca-lhe a pergunta do costume – que boas recordações é que tu tens? Henry, o miúdo, responde que não tem nenhuma. Ela insiste – então, só tens más recordações? qual a pior recordação que tens? Henry volta a responder que também não tem nenhuma. E na banalidade desta resposta desenha-se todo o horror de uma vivência sem qualquer expectativa – a ausência de um passado não é senão a ausência de qualquer ideia de futuro.

[Muito fica por dizer, e o filme é muito mais do que isto, mas o que vemos nos filmes tem também sempre a ver com as nossas obsessões particulares – e a [construção da] memória é uma das minhas.]

O trailer não lhe faz justiça, mas aqui fica.

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