Pouca Terra

ideias soltas sobre o documentário | Arlindo Horta

Até hoje, todos nos traíram

Enquanto pensava no melhor tema de estreia para inaugurar as minhas modestas “reflexões documentais”, deparei-me, por um acaso [no youtube], com um dos mais perturbantes filmes|documentários que vi até hoje. Chama-se “L’Ordre” e foi realizado por Jean Daniel Pollet, que [fiquei a saber] é um dos autores mais secretos da nouvelle vague francesa. O filme fala [e "fala" é mesmo o verbo que melhor se aplica] da ilha-prisão de Spinalonga, na qual foram encarcerados pelo Estado grego, entre 1904 e 1956, os doentes de lepra do país. Sobre imagens repetidas, uma e outra vez, das ruínas vazias da ilha, dos caminhos, das barreiras e dos limites que cercavam os seus prisioneiros, o filme cruza a “sua” voz com a voz|testemunho de um dos ex-habitantes de Spinalonga que nos interroga frontalmente:

“Durante estes anos muita gente veio ver-nos. Alguns para tirar fotografias, outros com um ponto de vista literário, para ver uma espécie de gente diferente. Muitos fizeram filmes. Até hoje, todos nos traíram. Nenhum transmitiu o que nós queríamos e aquilo que tinham prometido mostrar ao mundo. E isso feria-nos porque uns queriam mostrar a compaixão e outros queriam mostrar a repulsa, mas nós não queremos nem que nos detestem nem que tenham pena de nós. Nós precisamos apenas de amor. Amor enquanto pessoas que sofreram um infortúnio e não enquanto fenómenos.”

A acusação lançada por este testemunho verbaliza aquela que é, para mim, a questão central na definição de um documentário. Provavelmente cada um de nós tem uma ideia diferente sobre aquilo que é um “documentário” – para a maioria das pessoas radica numa separação do território da “ficção”, legitimada pelo enquadramento de “uma realidade” documentada, digamos assim [isto é, passível de ser comprovada]. O documentário ocuparia assim o território da “autenticidade” e da “verdade”, dois conceitos particularmente problemáticos. Por exemplo: porque é que não chamamos, então, documentários aos filmes de Pedro Costa ["No quarto de Vanda", "Juventude em marcha"] ou de Kiarostami ["Close-up", em particular]? Ou como classificar um filme como “Russian Ark” de Sokurov? Mais grave: porque insistimos em chamar ‘documentários’ aos filmes de Michael Moore? [E já agora aos do outro, do Spurlong?] Nestes e noutros casos é comum ler-se sobre a diluição das fronteiras entre “ficção” e “documentário”, mas nunca ninguém explica que fronteiras são essas. Afinal, aquilo que organiza a realidade, tal como organiza a “ficção”, são as narrativas [individuais e colectivas] e o que são os “documentários” senão representações específicas dessas múltiplas narrativas [dos intervenientes, do realizador, da História enquanto reconstrução da memória]?

Para mim o que define um documentário é, acima de tudo, a qualidade da relação que quem filma estabelece com quem é filmado: um documentário é um filme que não trai a “verdade” daqueles que filma – melhor, é um filme que devolve a verdade aos que filma. A especificidade do documentário [esqueçamos as definições] situa-se, portanto, na ordem da ética. Pollet não recusa olhar de frente os doentes que filma, mas recusa exibi-los. Devolve-lhes a verdade [a voz] que, “até hoje”, todos lhes negaram. É nisto que um filme|documentário se distingue de outras categorias cinematográficas. É aqui que reside a sua força maior. Como “L’Ordre” bem ilustra, um documentário é, ao mesmo tempo, um gesto poético e um gesto político.

O filme vai estar em videovigilância. São apenas quarenta minutos. Vale a pena.

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